Carta a Marielle

3 anos se foram...

Não morreu quando nasceu, morou e viveu na favela. A menina moça fez daquele lugar um território de luta, um canto para o exercício pleno à cidadania, ao direito de cantar, na Maré, que a sua dor e a de suas irmãs, negras e pobres, não lhe fosse indiferente.

Não morreu quando atravessou os portões e os muros da escola, ocupando, por direito, uma cadeira, na primeira turma do pré-vestibular comunitário.

Viveu quando o destino lhe presenteou Iara, por quem tomou fôlego para seguir cantarolando: “Que o futuro não lhe fosse indiferente”.

Uma jovem criança, adolescente, soube receber em seu colo, uma outra criança, para juntas, se fazerem mulheres, dignas da Maré.

Não morreu quando disse "não" às diferentes formas de opressão, quando disse não à “normalização” da crueldade, da violência expressa nas paredes, ruas, vilas e moradas de sua gente. Cada vez mais mulher, ofereceu seu rosto, sua cara limpa e corajosa. Aumentou sua voz para entoar seu canto:

“Eu só peço a Deus..

Que a guerra não me seja indiferente".

É um monstro grande e pisa forte.

“Toda pobre inocência dessa gente”.

As letras do seu cantar, orgulhosamente, sempre foi o dono maior da defesa da educação, da cultura, do empoderamento das mulheres na favela e na cidade.

Não morreu quando, à queima roupa, apagaram seus sinais vitais, levando seu corpo, pois permanecem as ideias do debate de gênero, raça e cidade. Essa tríade que ocupou, decididamente, seus dias de trabalho e peleja. Sintam: ela ainda está conosco.

E todas as bandas e músicas seguirão, em vozes estridentes, pedindo a Deus  “... Que a morte não me encontre um dia, solitário, sem ter feito o que eu queria".

Ao seu tempo de vida, nas contradições da Maré, foi uma socialista, livre para fazer o que queria.

Marielle, vereadora, seu mandato é nosso! Suas perguntas: “Quem são essas mulheres negras? Seus filhos, suas lutas?"...

Estas, seguirão eternamente vivas, até a última resposta.

Viva Marielle, VIVA!

 


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