Reinventar a UnB que queremos

Fátima Sousa[i] e Elmira Simeão[ii]

Cheias de fé, acreditando mesmo. Tal qual Darcy que se dizia “Faminto de fazimentos”, e, como ele, apaixonadas pela UnB. Suas diferenças e encantos, seus muitos ruídos, nas salas, pátios e corredores, a grama verde ou vermelha da estação e o vento colorido com folhas e flores que se espalham entre os blocos, florescendo e espalhando vida e esperança. Comunidade criada para criar e para defender o Brasil, seu povo, sua cultura. Representamos nesse momento um movimento progressista e humanista que apresenta sua candidatura à reitoria da UnB para reafirmação dos valores democráticos, do respeito à pluralidade e de uma pedagogia do afeto.

Instituída em 15 de dezembro de 1961, pela Lei 3998, a Universidade de Brasília surge planejada em diretrizes no Plano Orientador de 1962, primeira publicação de sua Editora, criada no mesmo ano. Uma universidade construída com ideais humanistas.

As concepções fundadoras da Universidade de Brasília revelam um projeto pedagógico audacioso para tempos difíceis. Escrito por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, foi uma proposição política e filosófica que pensou a prática estruturante de uma educação superior transformadora e cuja a produção se dirigisse ao fortalecimento da soberania nacional em ciência e tecnologia, propusesse meios de resolução de seus problemas sociais e defendesse a cultura e a diversidade de sua gente.

O Brasil apresenta crises sem precedência em sua história republicana, impondo à sua população, além da incerteza no futuro, agravada a cada dia com o desemprego e a angústia da solidão e do desamparo, já que o Estado brasileiro não apresentou respostas com uma política coordenada e nem evitou que chegássemos ao pico da pandemia com mais de mil mortes diárias.

É o avassalador colapso da saúde pública fragilizando o Sistema Único de Saúde (SUS), em consonância com o desprezo à educação, à cultura e às conquistas das ciências sociais e humanas. O cenário expõe o lado mais cruel da desigualdade e da vulnerabilidade de nossa população. Na universidade é hora de um posicionamento mais consistente com uma agenda humanista que enfrente, com firmeza, a narrativa anticiência, e dê respostas para a saúde com o componente da informação assertiva e confiável. Defendemos uma comunicação extensiva, democrática e aberta a toda comunidade, com informações que se atualizam em fontes confiáveis e se comprometam com a autonomia e o direito de pronunciar-se de cada um.

Quem desdenha do esforço das universidades, quer açoitá-las e comprá-las, sem nenhuma cerimônia, nenhum respeito. Nossa alma não está à venda, e nossa trajetória histórica demonstrou que sairemos dessa crise fortalecidos/as e renovados/as. Não acataremos a banalização da morte e seguiremos defendendo a universidade capaz de traçar um projeto de enfrentamento das questões estruturais e conjunturais da nação. É essa a nossa UnB, criada para dar respostas aos problemas do país.

O conhecimento nela produzido deve ser sempre uma resposta aos momentos desafiadores que vivencia, e jamais pode deixar de mirar o exemplo de seus fundadores, intelectuais de porte gigantesco. É desse patamar que avistamos as concepções fundantes da UnB para defender seu projeto pedagógico audacioso: uma universidade vivida como um ser político e filosófico que, da prática estruturante de uma educação superior, transforma, dialoga e aponta as questões do Brasil para o futuro. Em alerta e com a missão de defender a liberdade de expressão desde o golpe militar de 1964, e mesmo após o processo de redemocratização em lutas contínuas e diárias, as vezes dentro de seu próprio território.

Nossa UnB encontra-se mudada, com suas salas e corredores vazios, sem o burburinho alegre dos estudantes pelos campi, estes que são a razão maior de sua existência. Mas, isso não significou a paralisação da comunidade acadêmica. A preocupação com o coletivo na luta incansável dos/as profissionais da linha de frente, revela o crescimento de um modelo social cada vez mais colaborativo e que coloca o SER em primeiro lugar.

Nessa árdua caminhada, sem perspectiva certa de um futuro dentro da normalidade, percebemos que, como instituição ou como pessoas, precisamos de um agir coordenado e solidário. A sociedade presenciará, devido à pandemia, transformações que trarão impactos em todos os setores. É necessário amplo diálogo de todos/as os/as humanistas defensores/as da democracia e dos movimentos sociais para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao estado democrático de direito. Essa travessia não é de duas mulheres, mas de todas/os, em um agir comunicativo de um coletivo que não pode ter medo, se esquivar e nem encolher. Será primordial que a universidade reconheça, como Darcy, os fracassos do Brasil de agora, para seguir adiante, cultivar seu campo e florescer.

 

[i] Ex-diretora da Faculdade de Ciências da Saúde. Candidata à reitoria da Universidade de Brasília (2020/2024) pela Chapa Tempo de Florescer UnB - 83.

[ii] Ex-diretora da Faculdade de Ciência da Informação. Candidata à vice-reitoria da Universidade de Brasília (2020/2024) pela Chapa Tempo de Florescer UnB - 83.


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