A UnB não pode comprometer vidas com retornos imprecisos

Enquanto o pico da pandemia do Covid-19 segue sem controle diante da insensatez da gestão pública do Distrito Federal, até o momento com 49.218 casos confirmados e 587 mortes, segundo dados do painel do Conass; enquanto as vítimas da pandemia são identificadas ainda mais próximas de nossa comunidade; enquanto nossos corredores e salas continuam vazios por falta de uma vacina; e enquanto não ouvimos a gestão da Universidade de Brasília falar direta e abertamente para sua comunidade as razões da não oferta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) que possam garantir a higiene sanitária de segurança mínima para docentes, discentes, técnicos(as) administrativos(as) e terceirizados(as), como podemos discutir o retorno de atividades remotas sem apreensão?

Devemos ter em mente que a promoção da saúde de nossa comunidade deve estar sempre em primeiro lugar. Nossa UnB é feita por pessoas que estão enclausuradas em suas casas assumindo a jornada extra de professores(as) dos(as) filhos(as), adoecidas, ansiosas, temerosas por suas comorbidades – estas cada dia mais associadas com o momento singular e de extrema gravidade que estamos vivendo e, em particular, com o stress anunciado pela sobrecarga de trabalho que tocará o corpo de 2.867 docentes, os quais terão de readequar seus conteúdos presenciais para a modalidade remota. Esses são apenas alguns elementos que trago de ordem humana, mas não podemos nos esquecer também daqueles que tocam a infraestrutura.

Neste ínterim, quatro meses já se passaram, e nada se discutiu quanto ao quesito infraestrutura, que precisa ser revisitado junto aos laboratórios diminutos e insalubres, às salas de aulas em subsolos. Quanto à inclusão digital e ao acesso às tecnologias dos discentes para empréstimos de notebooks, já se afirmam os condicionantes: “quando um notebook estiver disponível” e para um prazo de “15 dias”, como se nesse curto período o(a) estudante cursasse todas as suas disciplinas. Esses e uma lista de outros inúmeros itens precisam de uma revisão para sempre, e não para o momento. É preciso planejamento estratégico, e isso não estamos recebendo nas prestações de contas que agora invadem nossas caixas e grupos.

Penso haver razoabilidade na suspensão do semestre 2/2020, em razão de podermos dedicar os meses de agosto a dezembro numa oferta coerente com os padrões de ensino da UnB correspondendo ao 1/2020. Nesse contexto, cabem os cuidados devidos com os estágios e as práticas necessárias aos mais variados cursos. Falo, em particular, da saúde: devem-se readequar os ambientes laboratoriais e a carga horária dedicada ao preparo e ao acompanhamento de novos conteúdos adaptados para o ambiente online; devem-se, além disso, observar os créditos de horas que são destinados aos colegas docentes em dedicação exclusiva, a estágios que serão interrompidos, a estágios probatórios em curso e ainda às habilidades e ao acesso tecnológico de toda a comunidade, que vez por outra tem tido suas reuniões com a gestão superior interrompidas por conexões ruins. Calculemos como ficam nossos(as) estudantes e colegas nesses momentos de interrupção em cadeia.

O que podemos esperar? Trancamentos e evasões em massa, comportamentos já conhecidos por nós em momentos adversos da vida estudantil – imaginemos em tempos de pandemia. Precisamos urgentemente de um diagnóstico situacional em que a comunidade possa considerar os riscos socioeconômicos, de saúde e vida. Esperávamos que, neste momento em particular, a UnB vivesse um planejamento participativo com a sua comunidade, mesmo que em salas virtuais, acerca de nossas potencialidades e limitações didático-pedagógicas e administrativas no que se refere à grave crise sanitária, a qual nenhum de nós esperava, tampouco o Brasil.

Sabemos que o GDF mal saiu da primeira curva de pico e agora entra em uma segunda, cada vez mais despreparado para o controle da pandemia. Esse despreparo bate à porta do caos já estabelecido na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). Não sabemos quem são os assintomáticos que devem estar circulando por aí, mas sabemos que a rede hospitalar já entrou em colapso, comprometendo a saúde física e mental dos profissionais da saúde que estão na linha de frente contra o Covid-19.

Se o GDF não está obtendo êxito no controle, imaginem a UnB. E não é por falta de avisos prévios que nossos(as) sanitaristas e epidemiologistas têm fornecido à universidade e à sociedade desde fevereiro. Nós os(as) vemos na mídia local e nacional todos os dias. No entanto, quatro meses se foram e sequer nos foram oferecidas reais situações das potencialidades e limites de nossa comunidade, que tinha total condição de se antecipar ao tempo, pois fazemos a ciência.

O porvir precisa ser discutido hoje, rapidamente, sem abrirmos mão da razão pela qual existimos: cursos presenciais com um sólido modelo educativo fincado nos eixos de ensino, pesquisa e extensão e consolidados em princípios inclusivos e democráticos, de modo que o acesso, a permanência e o bem viver de nossa comunidade não podem estar em segundo plano. Não há de ser em nome de uma situação grave, atípica e, rogamos, temporária que vamos prescindir do ensino de excelência que a UnB vem construindo ao longo dos seus quase 60 anos.

É hora de concentrarmos esforços para tirarmos do papel uma Universidade Promotora de Saúde de fato, nos moldes da que deixamos na Faculdade de Ciências da Saúde quando implantamos a FS Promotora de Saúde, juntamente à nossa comunidade da época, incluindo a UnB no rol da Rede Internacional de Universidades Promotoras de Saúde (RIUPS), feito que os registros da memória institucional não nos pode negar.

Estas reflexões são apenas algumas das muitas variáveis de confundimento que pairam sobre nossa comunidade. Não podemos dar continuidade ao que sequer começou para a grande maioria. Não devemos nos arriscar a fornecer qualquer horizonte para a retomada das atividades que não seja inclusivo e assertivo para nossa comunidade. A mera continuação do semestre letivo, que fora mal iniciado para logo em seguida ser suspenso, não é razoável. Definitivamente não é hora de inaugurações do vazio para o nada. As pessoas sempre devem estar em primeiro lugar.

 


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