A Enfermagem brasileira é a teimosa utopia em defesa da vida

Tomei por surpresa e imensa tristeza as últimas notícias que circularam no país acerca das agressões físicas e verbais sofridas pelos profissionais da Enfermagem, por ocasião de recente manifesto democrático em ato realizado na Praça dos Três Poderes, às vésperas do Dia do Trabalhador, reivindicando, silenciosa e pacificamente, por melhores condições de trabalho para seguirem salvando vidas na linha de frente da pandemia do novo Coronavírus. Sobre esse fato, você pode ler meu artigo anterior aqui.

É sobre essas e outras ações violentas e até então inimagináveis, estimuladas por um modo de governo autoritário que prega eliminação das instituições republicanas, inscita ao ódio e a quebra de vínculo humano que podem dar acolhida à solidariedade, à fraternidade e à diferenciação entre as formas de pensar dos indivíduos na construção de um pais civilizado, que também devemos refletir.

Imaginemos, pelo menos hoje, um país em que o chefe da nação amparasse as dores, sofrimentos e mortes das milhares de pessoas, que respeitasse as famílias que clamam em cadeia nacional de TVs abertas por seus direitos ao atendimento e cuidado no combate ao Covid-19, e a proteção de suas vidas pela única via hoje possível: o Sistema Único de Saúde (SUS) e seus profissionais, merecedores de respeito.

Afinal, vivemos num Brasil que, desde 1938[i] rende homenagens ao “Dia do (a) Enfermeiro (a)” e à Semana Brasileira de Enfermagem, comemorado em 12 de maio. Entretanto, nesses tempos sombrios, palmas e homenagens, ainda que legítimas, não são suficientes para que possamos reafirmar nossos compromissos com o maior patrimônio do povo brasileiro, os(as) profissionais de saúde. 

Somos 1.147 milhão de profissionais (303 mil são médicos, a maioria clínico geral, e 31 mil residentes), 843 mil trabalhadores da enfermagem do SUS, sendo 232 mil enfermeiros; 441 mil técnicos e 169 mil auxiliares que, diariamente, sol a chuva, em todos os recantos do pais, contribuem para o fortalecimento do SUS, em particular, e para os processos civilizatórios de não renunciarmos aos atos do pensar e agir em defesa incondicional da vida. (CNES, 2020).

Não falo com o “jaleco” de professora universitária, porque, desse lugar, tenho convivido com os(as) estudantes da graduação a pós, preocupando-me com o aprofundamento de suas pesquisas, desde a iniciação científica ao pós doutoramento, seja na Faculdade de Ciências da Saúde da UnB, ou em outros grandes centros dentro ou fora do pais, sempre em busca da ciência cidadã.

Também não me coloco na condição de ex-coordenadora do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e parte integrante da equipe composta, majoritariamente, por enfermeiras que formularam, implantaram, e vem acompanhando ao longo das últimas décadas, a Estratégia Saúde da Família (ESF). Iniciativas cuja responsabilidade era, é, e serão a de mudar a estruturação e organização das ações e serviços, configurados em redes integradas de saúde, tendo na atenção primária seu alicerce, cujos resultados são de domínio público.

Ajudamos a redefinir o retrato da saúde pública brasileira. Não sou eu quem afirma, mas a produção técnico científica, por meio de milhares de artigos, textos, livros, publicados em periódicos nacionais e internacionais de alto impacto.

Presente nas 40 mil Unidades Básicas de Saúde, nas 45 mil Equipes da ESF, no acompanhamento direto de 282 mil Agentes Comunitários de Saúde (ACS), nos 6.500 hospitais, e nas demais pontos do Sistema, que viram a alegria estampada nos rostos de quase 194 milhões de brasileiros cujos filhos(as) atravessaram os primeiros ciclos de vida de forma saudável, livres da mortalidade infantil. De igual maneira, a Enfermagem presente estava junto às mulheres de Norte a Sul, que tiveram suas primeiras consultas de pré-natal orientadas pelos(as) enfermeiros(as) de família generalista, evitando o aumento nas taxas de mortalidade materna nos 5.570 municípios brasileiros.

Tantas outras mortes foram evitadas com as visitas domiciliares dos(as) ACS, todos(as) acompanhados(as) e capacitados(as) pelos(as) enfermeiros(as). Isto significa que a Enfermagem sempre esteve presente nas ações cotidianas da vigilância à saúde, corresponsáveis em outros cuidados longitudinais aos agravos de hipertensão, diabetes, hanseníase, controle de câncer uterino e de mama, entre outros, foram mudando o retrato da saúde no Brasil.

Presente também sempre esteve na primeira fileira, como militante convicta do Projeto da Reforma Sanitária Brasileira e do Sistema Único de Saúde. Desse lugar, muitos(as) de nós ocupamos assentos estratégicos, fazendo a diferença no Congresso Nacional (Câmara e Senado), nas assembleias e câmaras legislativas, nos posicionando na elaboração de leis que assegurassem os direitos humanos, sobretudo o da Saúde.

De igual maneira assumimos funções sócio-políticas da mais alta relevância nas cadeiras junto às Universidades, Institutos, Centros, Faculdades, Núcleos, coordenando, com maestria, a responsabilidade em formar, qualificar e educar os(as) atuais e futuros profissionais para o setor saúde do público; alimentadas por pesquisas vitais ao pleno desenvolvimento de políticas, sistemas, serviços e ações dirigidas, sobretudo, à prevenção, promoção, tratamento, recuperação e cura de agravos, emergentes, reemergentes, epidêmicos e pandêmicos, sem medir nenhum esforço na missão de (re)construir territórios saudáveis nas mais diferentes cidades em um país diverso, plural e, por vezes, singular.

Presente, estará sempre, a Enfermagem brasileira nas lutas e resistências, pelo fim do mal radical, das raízes de práticas sistemáticas de violências de qualquer natureza por parte de uma “nova forma” de governo. Nosso lugar será sempre o da teimosa utopia em busca dos valores mais preciosos da humanidade: liberdade, justiça, solidariedade, ética, dignidade, compaixão, generosidade, perseverança, tolerância... 

Esses e outros valores guiam o exercício cotidiano das práticas da enfermagem do setor saúde, em contraposição, repito, ao mal radical e ao mal banal. Nosso lugar ontem, hoje e amanhã será “no amor mundi”, para usar a terminologia de Hannah Arendt, no respeito aos espaços onde os seres podem circular e se sentirem amparados pela presença dos iguais e dos diferentes. Nesse mundo comum, todos mostram que nasceram para começar a vida plenamente, e não para morrer, desgraçadamente. 

 

[i] A primeira semana da Enfermagem foi instituída pelo presidente da república Getúlio Vargas, através do Decreto nº 2956, de 10 de agosto de 1938. O Dia Internacional da Enfermagem é celebrado mundialmente desde 1965. Porém, oficialmente esta data só foi estabelecida em 1974, a partir da decisão do Conselho Internacional de Enfermeiros. O dia 12 de maio foi escolhido como homenagem ao nascimento de Florence Nightingale, considerada a "mãe" da enfermagem moderna.

 


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