Fátima Sousa e o Setembro amarelo

Suicídio, uma grave doença societária.

O suicídio é uma grave questão que vem há séculos preocupando cientistas sociais. Karl Marx é um deles. Em 1846 publicou o texto “Sobre o Suicídio”, a partir de um capítulo da obra de Jacques Peuchet, diretor dos Arquivos da Polícia de Paris durante o período da Restauração, intitulado “O suicídio e suas causas”. Nele, Marx correlaciona o aumento exponencial já preocupante desse fenômeno social, especialmente em um grande centro urbano da sociedade capitalista e o fato de como as grandes transformações econômicas tem profundo impacto na esfera privada.

De um lado, as pessoas são reduzidas à condição de produtoras e consumidoras, valoradas como “qualquer coisa” no mundo capitalista e medidas pelo que podem produzir e possuir, desresponsabilizadas pelos vínculos comunitários e da família; de outro, obrigadas a se avaliar pelos valores da concorrência à sua volta, competir com outros seres humanos também reduzidos à condição de “coisa”, com valores de uso e de troca. As pressões externas e internas, nesse universo, podem ser imensas e esmagadoras a cada indivíduo, produzindo tanta angústia e desespero, que sua capacidade de resiliência é esmagada e ele acaba sucumbindo à dor e se excluindo.

Outro cientista que se preocupou com o tema foi Émile Durkheim, que por sua vez, publicou “O suicídio”, em 1897. A obra se tornou referência sobre o método sociológico e entre as causas apontadas no referido estudo de caso, o mestre da sociologia aponta que o fenômeno se relaciona à integração social. Nesse sentido, a possibilidade de sua ocorrência estaria relacionada aos extremos dessa integração, na qual o indivíduo sofreria os extremos da ausência ou da excessiva presença reguladora, o que o levaria a um estado de anomia e anulação definitiva.

Em ambos os estudos, tanto Marx como Durkheim convergem para a constatação de que a doença que se desenvolve no plano privado e leva o indivíduo ao suicídio, na maior parte dos casos, decorre de relações econômicas e sociais. Neste último caso, para Durkheim, inclusive as religiosas. A doença do indivíduo é o sintoma de uma sociedade também doente.

Esta reflexão sobre o suicídio nos leva à questão, não apenas do por que os indivíduos se suicidam, mas também à razão de as sociedades democráticas se suicidarem. Ou seja, porque, utilizando o próprio voto – um dos instrumentos de participação e decisão na democracia – uma parte da sociedade decide colocar fim à democracia, submetendo-se a regimes autoritários e ditatoriais, como fizeram os alemães em 1938 e parte dos brasileiros, em 2018.

A democracia sob ataque e a retirada de direitos; o desmonte do nosso querido Sistema Único de Saúde; o desrespeito aos direitos civis, humanos e políticos e, o mais grave, os cortes e o sucateamento do que temos de mais valoroso para nosso desenvolvimento enquanto pessoas, sociedade e nação, nossa educação. Ainda, a precarização do trabalho, a retirada de uma aposentadoria que ainda nem beirava a dignidade para aqueles que tanto fizeram e ainda fazem pela sociedade. A falta de perspectiva que assombra os jovens e tanto mais que nem caberia neste texto... colaboram para o atual e triste contexto.

Todavia e como a canção de Chico Buarque, “amanhã vai ser outro dia”. Somos um povo perseverante e lutaremos pela nossa democracia, nossos direitos e nossa saúde mental. Juntos, apoiando uns (umas) aos(as) outras não só em setembro, mas em todos os dias pois todos (as) devemos estar unidos(as) em defesa da vida em sua plenitude.


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