Por que defender Brasília?

Neste segundo artigo de uma trilogia sobre a defesa de nossa Brasília e seu patrimônio, destaco algumas razões pelas quais precisamos nos unir em defesa de nossa cidade. E na tentativa de outras inquietações, destaco, em primeiro lugar, o posicionamento corajoso, decidido e radical da primeira gestão da cidade, a cargo de JK e sua equipe, que visionariamente decidiram implantar de imediato no solo, toda a estrutura básica da cidade, de modo a assegurá-la de acordo com o plano original, não subjugando sua continuidade às gestões posteriores.

Aquela decisão presidencial foi o primeiro ato de preservação de Brasília, cidade que JK sempre sentira histórica e com valor de permanência. Brasília cresceu, amadureceu, criada nesse espaço escancarado de horizontes extensamente verdes e infinitamente azuis, de ar puro e mente arejada daqueles que aqui já nasceram, cresceram e crescem; e que já são maioria e amam esta cidade, que é também de todos os brasileiros e brasileiras, como eu e você.

Brasília é diferente, mas normal; planejada, mas humana; jovem, mas madura. Cabe a nós, que reconhecemos as suas peculiaridades e qualidade de vida, de cidade talhada para as funções administrativa, política e também do acolhimento humano, lutarmos a boa luta por sua preservação, tal qual como foi concebida, mas em permanente evolução e como cidade viva. Porém, jamais agredida, tornando-a estreita e pequena, subjugada aos interesses excusos de poucos.

Portanto, a defesa de Brasília, interessa àqueles(as) brasileiros(as) que a amam e a respeitam da forma como foi planejada, olhando sempre para o horizonte de suas finalidades, respeitando a interação das suas quatro escalas urbanas: a monumental, a residencial, a gregária e a bucólica.

Então há que se respeitar todos que lançaram a ideia da interiorização da capital da nação, que pensaram, planejaram e, com determinação, concretizaram o sonho de Brasília, dentre outros: o jornalista Hipólyto José da Costa ((1808), José Bonifácio de Andrade e Silva (1823), Senador Holanda Cavalcante (1852), o Engenheiro Civil e Astrônomo Luis Cruls (1892/1894), Poli Coelho, Agnaldo Caiado de Castro, José Pessoa, Altamiro Moura Pacheco, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, Juscelino Kubitschek e milhares de valorosos(as) candangos(as) anônimos(as) que aqui deram seu suor, seu sangue e suas vidas.

Por fim, cabe lembrar que Brasília já foi demasiadamente agredida em seu plano original, de forma despropositada por aqueles que se negaram a entender a sua real função para a nação. Essas agressões que redundaram em uma situação de caos urbano e social de tal monta que hoje se tem que conviver com problemas, praticamente, insanáveis, tais como: alto índice de desemprego; falta de segurança; infraestrutura de saneamento provocando o reaparecimento de epidemias que nos remetem a um passado longínquo; pública deteriorada e desumana; agressão ambiental, com deterioração dos corpos hídricos, o que tem levado, inclusive, ao quase colapso do abastecimento de água, que levou o Distrito Federal a lançar mão do famigerado racionamento de água potável; transporte público e tráfego inconcebível para a capital de um país, que em breve levará ao estrangulamento total da mobilidade urbana.

Diante de tudo isso, fica evidente e cristalino que não cabe o argumento de que essas “duvidosas” e voluntariosas modificações no plano urbanístico irão resolver os gravíssimos problemas aqui apontados. Pelo contrário, qualquer novo projeto de adensamento urbanístico irá agravar ainda mais a situação caótica em que Brasília se encontra.

Portanto, qualquer proposta que vise a geração de emprego e renda deverá considerar como alternativa as regiões administrativas que estão fora da área tombada.

E para finalizar essa argumentação, nada mais próprio do que citar o mestre que a concebeu, Lúcio Costa:

"O plano-piloto de Brasília não se propôs visões prospectivas de esperanto tecnológico, nem tampouco resultou de promiscuidade urbanística, ou de elaborada ou falsa "espontaneidade". Brasília é a expressão de um determinado conceito urbanístico, tem filiação certa, não é uma cidade bastarda. O seu "facies" urbano é o de uma cidade inventada que se assumiu na sua singularidade.

Brasília nunca será uma cidade “velha”, e sim, depois de completada e com o correr dos anos, uma cidade antiga, o que é diferente, antiga mas permanentemente viva.

O Brasil é grande, não faltarão aos nossos arquitetos e urbanistas oportunidades de criar novas cidades. Deixem Brasília crescer tal como foi concebida, como deve ser – derramada, serena, bela e única.”


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