Mulheres, por que lutamos?

Porque somos feministas. E ao escolhermos esse lugar, colocamo-nos em uma posição ideologicamente esclarecida, politizando assim nossas buscas por uma outra sociedade. Nela, o patriarcado, como um sistema de autoridade masculina que legitima a opressão das mulheres através de instituições políticas, legais, econômicas, culturais, religiosas e militares, fará parte das páginas do passado. Como nos lembra a filósofa norte-americana, Judith Butler: “[...]o feminismo apenas pode ser pensado em seu sentido expandido. Não como uma defesa de algo como ‘feminino’, nem como uma simples defesa das mulheres[...]”.


Porque somos seres políticos. E lutamos porque somos seres políticos em nossa essência e, ao nos reconhecermos como tal, nossas lutas pelos direitos das mulheres transborda as convenções impostas por uma sociedade que, no passado, não alcançava no horizonte nossa potencialidade em nos colocarmos à frente de situações que demandam poder decisório em benefício da coletividade. Lembremo-nos sempre das palavras do filósofo Byung-Chul Han: “quanto mais poderoso for o poder, mais silenciosamente ele atuará [...]”, assim vimos atuando, firmes, ao longo da história.

Porque somos socialistas. E ao escolhermos os caminhos do socialismo, optamos por seguir nossos instintos a fim de defendermos a igualdade entre homens e mulheres. Portanto, não podemos perder de vista que nós, mulheres, também devemos exercitar, entre nós mesmas, esta igualdade necessária para a utopia que nos move e abastece rumo à transformação da sociedade de forma pacífica, tendo nossas práticas como a linha que tece e une a trama de nossa rede Brasil afora e, particularmente, em nossa Brasília, cidade da esperança.

Porque somos livres. E por exercermos nossa liberdade plena, devemos, cada vez mais identificar esta condição como um ato político, um ato de provocação diuturna às forças estabelecidas. Não somos frágeis, isto já sabemos e eles também, mas somos diferentes em nossa essência, pois devemos nos enxergar livres de estereótipos previamente estabelecidos. Sobre isso, já em 1928, Virgínia Wolf nos apresentava em sua obra, ‘Orlando’, o despertar de um rapaz rico que acorda como mulher, passando então a entender as dificuldades e limitações vividas pelas mulheres, reconhecendo suas inúmeras diferenças. Liberdade deve ser sempre nosso direito à liberdade.

E, por tudo isso, faz-se urgente lembrarmos, todos os dias que também somos diferentes, logo não temos uma identidade homogênea enquanto feministas, na luta interna de nos tornarmos mulheres em sua essência política. Eis a riqueza: nos reconhecermos, aceitarmos e celebrarmos a nossa diversidade. Assim, os prejulgamentos, a patrulha de narrativas e linguagens, a seletividade aos estilos ou modos de nos portarmos no mundo, abre um abismo, uma equidistância desnecessária na busca do que podemos denominar de unidade à construção de uma agenda compromisso capaz de acolhermos umas às outras nas suas singularidades.

E mais, estamos visceralmente imbricadas em uma árdua luta para deixarmos para trás um passado de colonização, escravidão, regime militarizado, e com ele as brutalidades, perversidades de um sistema capitalista feroz que carrega, sem dor nem piedade, nossa juventude para a ‘banalidade do mal’, nos dizeres de Hannah Arendt.

A tarefa não é pequena. Não é para poucos. Muito menos para algumas. É para multidões. Massas que compreendam em que país desejam viver e deixar como herança para futuras gerações. Queremos construir um país das doenças e mortes, ou da saúde e vida? Da violência ou da paz? Da ditadura ou da democracia plena? Convido-as a seguirmos, unidas, construindo uma nação em que nossas falas pratiquem a gramática da esperança. E que tenhamos ‘sede e fome’ de um país onde seremos cidadãs plenas, livres da opressão do sistema patriarcal.

Um país onde pratiquemos a não-violência e a realização de sociedades de igual maneira não-violentas. Onde o direito de cada mulher a ter acesso à saúde, educação, moradia, transporte, terra, água e saneamento, trabalho e renda, cultura, lazer, vestimentas, é mais que um conceito ampliado de saúde, é, sobretudo, a verdadeira, efetiva e sustentável proteção social. Onde a liberdade de escolha e autonomia em relação às questões de integridade física, incluindo direitos reprodutivos, aborto, identidade sexual e orientação sexual, pertençam às suas vidas. Onde o direito de amar e ser amada não seja matéria para se pedir licença a nada ou a ninguém, a não ser às próprias almas envoltas num sentimento de liberdade de amar e ser amada. Onde o direito de expressar a nossa espiritualidade, dentro ou fora das religiões organizadas, não seja motivo de conversas ‘miúdas’ ou apartação. Dito de outra forma, falo do direito de vivermos a cidadania plena em uma nação, inter-religiosamente.

Também podemos ampliar nossas lentes e reconhecermos a capacidade e grandeza, umas das outras, em seus mais diferentes espaços de insistência, persistência, resistência, teimosia ou rebeldia, posto que qualquer ato dessa natureza deve ser visto como ganhos históricos e significativos ao “Movimento das Mulheres Brasileiras” ao longo das últimas quatro décadas dos séculos passado e presente, pois elas merecem nosso respeito e consideração.

Hoje estamos aqui porque outras mulheres abriram os mais diversos caminhos, desde os campos de batalha, onde lá estava a catarinense Anita Garibaldi (que nem mesmo grávida se ausentou das frentes de luta); ao direito de votarmos, cito a potiguar Celina Guimarães Viana (primeira eleitora do Brasil, em 1930); a carioca Lota de Macedo Soares, já nos anos 60, nunca escondeu sua orientação sexual; chegando à luta rural, e neste interim não me esquivo de citar minha conterrânea paraibana, Margarida Alves; além de outras bravas, a exemplo de Marielle Franco e uma infinidade de anônimas que tombaram em batalhas singulares, de Norte a Sul do país. Por elas e pelas que virão, devemos permanecer firmes, em pé, lado a lado.

Nas mais diferentes estratégias e contextos, entraram em greve, marcharam em protesto, fizeram pesquisas, análises, sensibilizaram os poderes, criaram instituições, e sem medir esforços, fizeram tudo para que o Estado, o mercado e outras instituições, reconhecessem a humanidade das mulheres que disseram NÃO a opressão do mundo machista nas suas diferentes feições.

É preciso que brademos aos ventos que nossa ética é coletiva e se ancora na luta pela igualdade de gênero, traduzida pelos valores da indivisibilidade, inalienabilidade e universalidade dos direitos humanos das mulheres. E que esse horizonte ético da coletividade nos convide à experiência da solidariedade, da afetuosidade e do respeito mútuo, com base na discussão franca, honesta e aberta sobre a diferença de umas e de outras, abrindo as portas das mentes e corações para o verdadeiro sentido do clamor das ruas que nos recorda sempre: “ninguém solta a mão de ninguém”, ou “Nenhum a menos” (filme chinês de 1999, do diretor Zhang Yimou, que relata o desafio de uma garota de 13 anos a manter todos os seus alunos na escola). Que sejam estas algumas expressões do cuidado que podemos alimentar para com o nosso próprio bem-estar.

Que a luta por ocuparmos os espaços de poder seja nas instituições do nosso PARTIDO, do Estado e outras organizações em que possamos nos reinventar a outros esboços participativos e democráticos de nos conduzirmos. Exercitando sempre, a assertiva que os “espaços feministas” são criados para elevar e emancipar as mulheres, não para promover competições, desconstruções de nenhuma trajetória, muito menos para reprodução das doenças societárias que combatemos. Afinal, não podemos permitir, venha de onde vier, que espaços institucionais se transformem em locais de opressão e enfraquecimento de outras mulheres. Ao contrário, devemos exercer a “liderança” responsável nas organizações feministas, tendo em consideração as necessidades, sonhos e esperanças, umas das outras, para a autorrealização e o desenvolvimento humano. Isso inclui a criação de espaços para a partilha de poder multigeracional. Inclui ainda, a construção e expansão de uma gestão inteligente da informação e do conhecimento de forma permanente à formação das nossas análises e estratégias na defesa de uma outra nova cultura de aprendizagem emocional, começando por nós mesmas, na abertura de oportunidades para nos conhecermos mutuamente, nos dizeres de Paulo Freire, “nos educando para a vida”.

Por que lutamos mulheres? Lutamos planetariamente, porque nos importa o sonho de sermos e fazermos felizes as mulheres do nosso Brasil que queremos para nós e para a geração que está por vir...

Montreal/CA, agosto de 2019.


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