Brasília sem cultura é uma cidade morta

Como cidadã brasiliense, estou em estado de choque com o cancelamento do edital Áreas Culturais de 2018 do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), que cancela quase 300 projetos em teatro, dança, música, ópera, musicais, literatura, artes visuais e performances. A ação da Secretaria de Cultura em anuência com o governo do DF tem um ar sórdido e mordaz. O de querer interditar o fazer artístico na capital do Brasil, capital da Cultura, Brasília patrimônio da humanidade.

Uma decisão unilateral, sem diálogo com a classe artística, a ponto de se criar um vexame nacional: o Conselho de Cultura do DF, órgão máximo da representatividade da sociedade, recomendar ao governador que exonere o secretário de Cultura, que caiu de paraquedas no atual Governo, sem pertencimento algum ao fazer cultural dessa terra. Em recente entrevista ao Correio Braziliense, esse senhor disse querer limitar o nome do trabalhador da cultura a apenas dois projetos. Ora, na cadeia de produção de uma peça de teatro, por exemplo, uma atriz se envolve, em média, dois meses de trabalho. Com essa limitação, estaria em atividade em apenas 1/3 do ano produtivo. O único adjetivo que encontro nessa medida é o perverso, a serviço do desmonte da cadeia produtiva da cultura.

O que desejam o secretário de Cultura e o governador com esse pacote de maldades destinado à classe artística? Certamente, abrir teatros arruinados pelo tempo com espetáculos caríssimos nas comemorações dos 60 anos de criação da cidade. Estarão sob os holofotes enquanto os fazedores de cultura da cidade serão condenados às sombras.

É tão contraditório o que esses senhores estão fazendo com a cultura do Distrito Federal. Renomeiam a Secretaria de Cultura para Secretaria de Cultura e da Economia Criativa e, simultaneamente, rompem com a cadeia produtiva, golpeando quase 10 mil artistas, que licitamente gastaram horas para desenvolver e planejar esses projetos. Inscreveram-se num edital público investindo na vinda de pareceristas para cidade. Esses analistas custaram dinheiro para o erário. Aliás, rasgar esse edital é um crime de responsabilidade fiscal. Como querem levantar a bandeira da economia criativa se deixam esses trabalhadores à míngua?

Estamos todos chocados com essa decisão arbitrária porque ela sangra o sonho de Brasília. A cultura está intimamente relacionada com a criação da cidade e, consequentemente, com a constituição do Distrito Federal. Tanto o projeto urbanístico de Lucio Costa quanto o arquitetônico de Oscar Niemeyer tinham em comum o diálogo com a arte em suas concepções. A vinda de artistas para os canteiros de obras revelou a relevância da construção de uma cidade-musa, inspiradora para a nação. Uma joia urbanística tombada pela Unesco em 7 de dezembro de 1987, tornando-se a primeira cidade moderna do mundo na lista de Patrimônio Artístico e Cultural da Humanidade.    

“A capital da esperança”, como era apregoada em apaixonadas campanhas publicitárias do governo JK, seria de todos e para todos brasileiros, com acesso e democratização do fazer cultural e artístico, abarcando assim um mosaico da diversidade criativa que faz do Brasil um país singular.

Cinquenta e nove anos depois, Brasília e o Distrito Federal tornaram-se o espelho da política cultural desenvolvida no país. Entre a capital-arte e as 31 regiões administrativas, ergue-se um fosso cultural que aparta não só o acesso e fruição aos bens culturais ofertados à população como também a dinâmica da economia criativa movimentada pelos fazedores de cultura.

Queremos o Teatro Nacional Claudio Santoro aberto com recursos que não sejam usurpados do Fundo de Apoio à Cultura, hoje protegido pela Lei Orgânica da Cultura (LOC). O Teatro Nacional foi projetado por Oscar Niemeyer para ser o mais importante equipamento cultural da capital federal. Não pode permanecer fechado. Abri-lo às custas da fama de uma massa de trabalhadores de cultura é agendar para 21 de abril de 2020 uma festa macabra.

Afinal, não nos esqueçamos que nossa sociedade tem vivido um sofrimento psicossocial generalizado frente às inúmeras crises das mais diversas ordens, nesse particular, no campo da cultura, mas sem esquecermos da educação, saúde, segurança, mobilidade urbana, ou seja, um verdadeiro desmantelo que nos tem exaurido as forças. Não temos mais espaços para a morte no DF.

Temos que nos reinventar, nos refazer, investir em nossas potencialidades, por mais que obscurecidas pela cidadania dilacerada. Nos inspiremos em Nise da Silveira, que, corajosamente, associou o tratamento da saúde mental de seus pacientes à processos de terapia ocupacional, inserindo a arte em suas vidas. Ao invés de oferecer-lhes os famosos “sossega leões”, ela lhes deu pinceis, tintas e telas brancas, onde lhes era permitido sonhar, quem sabe, com a concretude de uma cidade da esperança.


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