A dicotomia entre creche ou universidade dilacera as artérias da ciência brasileira.

O ministro da educação perguntou: “Universidade ou creche”? O que você responderia?

Antes de tentar responder, informo aos que aqui navegam que sou professora associada da Faculdade de Ciências da Saúde (FS), de onde fui diretora (2014-2018), da Universidade de Brasília (UnB), uma das três que sofreu cortes lineares de 30%, cujo critério foi: “balbúrdia”.

Fui professora do ensino infantil e médio. À época, já lutávamos por um Plano Integrado na Educação Brasileira. Assim, a pergunta foi infeliz, para falar o mínimo.

Investir na educação básica implica, necessariamente, investir no ensino superior. Lembremos ao Ministro que somos nós aqueles que formam, também, os professores que ensinarão amanhã, desde a creche ao ensino superior. Logo, essa dicotomia não toma sentido para quem, verdadeiramente, tem uma fração de conhecimento sobre o papel das universidades públicas, inclusivas e de qualidade. Portanto, esse olhar dicotômico mostra que falta bases consistentes de conhecimento acerca do papel histórico de alma mater da educação superior no Brasil.

Lembremos ainda, que o corte nas universidades desrespeita o Plano Nacional de Educação, segundo o qual o Brasil precisa saltar de 1 milhão para 3 milhões, número de matriculados nas universidades públicas em dez anos.

Lembremos, sobretudo, que, segundo a Constituição Federal e as leis que regem a administração pública, é crime de improbidade lançar mão da peça orçamentária para punir, retaliar e descriminar as instituições por diferenças ideológicas.

Aproveito para fazer uma pergunta ao Sr. Ministro: O que está fazendo que não coloca em sua agenda a tarefa de disputar os recursos federais para investir na Educação? Afinal, essa é uma das funções precípuas de um ministro de estado, lutar por mais recursos para gerir sua “pasta”.

O discurso entre a separação da educação básica e da superior, induzindo o povo brasileiro a escolher entre uma ou outra, nos coloca em um abismo sem volta para o mundo de analfabetos, ampliando os já existentes, tanto da educação formal, quanto funcional.

Pior, fecha as janelas de oportunidades e reduz a capacidade de sonhar dos jovens que estão concluindo o ensino médio. A eles o governo sinaliza com essa atitude, ou melhor, vai logo avisando que sua carreira formativa e educativa para por aí. A perspectiva que os levaria a sentar nos bancos de uma universidade, se foi.

Ainda que a população brasileira esteja com maior expectativa de vida, fruto do desenvolvimento da ciência, a fração de crianças e jovens, permanece maior que adultos e idosos, tendência que logo mais mudará, assim, não podemos adiar mais os investimentos na educação. Ao contrário, necessitamos criar Universidades para a terceira idade e termos jovens com habilidades, conhecimentos, competências e atitudes para cuidar dos nossos idosos. Isto é uma responsabilidade do Estado e se configura como uma ética da urgência: defender uma vida saudável pela via da educação.

É necessário lembrar ao Ministro o quanto é perverso, aliás, gravíssimo, hoje e no futuro, a meta definida pela equipe econômica de retirar do orçamento do MEC quase R$ 6 bilhões, e o Ministro ocupar seu tempo com perguntas desconexas, contrapondo a educação básica e universidade. Um equívoco desproporcional para o dirigente nacional da Educação.

Além disso, o governo federal tem que investir em educação básica, mas não em detrimento do ensino superior. É pela integração de ambas que “pulsam” as artérias do coração do desenvolvimento da ciência brasileira, portanto, da saúde e vida de uma nação que deseja permanecer ser democrática e soberana.

 


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