Mais cortes na UnB. Quais as razões para tanta fúria?

O mês de abril se foi profundamente marcado no calendário das vidas institucionais das universidades públicas brasileiras, em particular na Universidade de Brasília (UnB) e as Universidades Federais Fluminense (UFF) e da Bahia (UFBA), vítimas do abuso de poder e de um autoritarismo sem medidas que reduziu suas verbas.

Os cortes não se constituem novidade, haja vista a Emenda Constitucional 95/2016, que limita por 20 anos os gastos públicos com saúde e educação, em nome da austeridade econômica. E o que salta aos olhos é a crescente onda na redução dos investimentos nas Instituições de Ensino Superior (IES), sem nenhum critério técnico.

Resta-nos uma entre tantas indagações: por que tanta fúria ao contingenciarem mais da metade dos já escassos recursos destas três instituições em particular? Justo aquelas que estão entre as 20 melhores universidades segundo o Ranking Universitário Folha (RUF, 2018) e o CWUR World University Rankings (2018-2019), ficando a UnB em 9º lugar no ranking geral, a UFBA em 14ª posição e a UFF em 16º colocação.

A fúria encapsulada em frágeis discursos alegando supostos baixos desempenhos acadêmicos, e que estas Universidades são promotoras de ‘balbúrdia’, só reconfirma o desprezo por nossa educação, claramente percebida na matéria do jornal O Estado de S. Paulo e outros desdobramentos jornalísticos que circularam durante o dia em todo o pais.

Reafirma ainda o desejo explícito pela desestruturação do modelo de formação crítica, responsiva e cidadã de administradores, antropólogos, economistas, enfermeiros, engenheiros, médicos, farmacêuticos, filósofos, físicos, matemáticos, pedagogos, químicos, sociólogos,  entre outras tantas profissões que formamos nas IES, capazes e compromissados com o desenvolvimento da ciência e da cultura promotora do bem-estar sócio político e econômico do pais, em ambiência de efervescência, criatividade, trocas de saberes, livre expressão e convivência nos campi universitários.

A fúria, enviesada de eficiência, eficácia e outras adjetivações, pode impedir a emergência de grandes talentos, a exemplo dos nossos primeiros Reitores, como Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Frei Mateus Rocha, e outros habilidosos brasileiros, brasilienses como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, só para ficarmos entre os seus construtores.

Mas por que a fúria, mesmo?

Será porque os(as) dirigentes dessas Universidades foram obrigados(as) a gerenciarem, com eficiência, as demissões em massa de trabalhadores(as), pais e mães de famílias que viveram décadas sonhando com suas aposentadorias, quando descansariam seus corpos cansados pela força perversa dos seus labores?

Será porque criamos métricas quase inatingíveis, diria um funil, que exclui a entrada dos filhos(as) dos(as) verdadeiros(as) produtores(as) das riquezas do país, para que tenham assentos confortáveis apenas os(as) herdeiros(as) das elites empresariais e financistas? E quando tentamos romper as regras, somos anarquistas, revolucionários(as) inconsequentes. É isso que causa a fúria?

Ou será por que produzimos ciência no Brasil com as migalhas que nos sobram, melhor, que caem das malas e dos armários das casas grandes? Ainda assim, cientistas, negras(os) e pobres doam suas vidas, literalmente, pois na ciência, tal como na vida, seguem teimando, insistindo, resistindo em produzir conhecimento para superar as desigualdades e misérias humanas causadas pelas desmedidas ordens dos ‘donos do poder’.

Qual a raiz mesmo da fúria? Será a cólera em impor um pensamento único, cuja matriz orientadora é ‘quebrar’ a autonomia universitária reduzindo sua gestão à lógica produtivista das organizações mercadológicas, nos transformando em quitandas de vendas de alimentos com agrotóxicos e medicamentos reprodutores das doenças do consumo desmedido? Ou a ‘'balbúrdia’ virou sinônimo de ensinarmos e aprendermos com essa nova geração, os compromissos que devemos aprofundar rumo aos valores e princípios democráticos de uma sociedade livre, na qual as universidades não podem temer os efeitos da vida associativa das organizações estudantis, da mobilização das associações organizadas, afinal, nada disso representa risco de instabilidade da ordem preestabelecida. Ao contrário, a ‘balbúrdia’ é sinal de vida acadêmica que vibra em clima de liberdade democrática, que nos conduz a um banquete civilizatório. Nele, nossa UnB estará pronta e reconhecida, dentro e fora do país, como uma Universidade que nasceu e viverá para ajudar o Estado e a sociedade brasileira a elevar-se à condição de um pais justo, solidário e feliz.

Essa tem sido nossa missão e nela o ‘baixo desempenho acadêmico’ não tem lugar. E nunca terá, porque não esqueceremos a tarefa que seu criador nos delegou:

“Só muito lentamente, ao longo de sofridas décadas, essa nossa Universidade de Brasília começa a renascer. Isto dá-se pelo trabalho recôndito, silente, daqueles que se fizeram aqui o sal de sua carne. Retomaram nosso ideal de implantar nesta cidade-capital do Brasil uma comunidade autônoma e independente de sábios capazes de operar em duas órbitas. A de dominar todo o saber humano, para ganhar existência própria dentro da comunidade científica mundial, tarefa indispensável para que o Brasil realize as suas potencialidades. E a de acercar-se ao nosso povo mais humilhado e oprimido, para buscar os caminhos de sua libertação e prosperidade.”

Encerro orgulhosa da minha ‘linda’ UnB, com o trecho do discurso de Darcy Ribeiro, em 15 de março de 1995, por ocasião da solenidade de sua titulação como Doutor Honoris Causa da Universidade de Brasília, e com a certeza de que não abriremos mão da nossa autonomia científica, administrativa, financeira, e da liberdade de cátedra a nós assegurada pela Constituição Federal do Brasil.


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