Vamos morrer até quando?

“VAMOS MORRER ATÉ QUANDO?”

Essa foi a pergunta que nos fez a Folha de São Paulo, nesse domingo, 20/06, numa capa de desenho gráfico praticamente vazio. Se uma página vazia causa incômodo, imagine a dor das famílias dos 500 mil brasileiros que perderam a vida para a Covid-19. E exatamente no final de semana em que os números saltaram aos olhos mostrando o horror da maior tragédia desse século, milhares de brasileiros foram outra vez às ruas dizer que é impossível suportar. Nosso país representa 2,7% da população do planeta. No entanto, concentramos 30% dos óbitos da pandemia. Boa parte desses números são resultado de sucessivos erros do governo federal e do governo do Distrito Federal.

Esperava-se um mínimo de competência nesse momento, quando se exige uma gestão de crise, com orientação precisa e baseada em evidências técnico-científicas, em defesa da ciência, da saúde e da vida. O primeiro erro foi subestimar a capacidade letal do vírus, acreditando que uma pretensa habilidade política daria conta do recado. Nada de ouvir autoridades sanitárias, infectologistas ou a OMS. A teimosia e a prepotência tratou de transformar a situação em questão política, em estratégia cínica e clinicamente equivocada com a cloroquina. Uma doença comum, “gripezinha”, e não um evento global, complexo em suas dimensões sociais, econômicas e políticas.

Manaus foi o exemplo de erros desmedidos. Desde a prescrição de Ivermectina, Azitromicina, Hidroxicloroquina, amplamente atribuídos como parte do “tratamento precoce”, passando pela falta de profissionais preparados, leitos de UTIs e oxigênio, insumo que nunca poderia faltar. E antes de sairmos da primeira onda, já entramos na segunda, sufocados e em desespero como quem perdeu a vida e o ar para respirar. A gestão totalmente descoordenada e desprovida de referenciais epidemiológicos e celeridade. A burocracia se mostrou mais importante do que o oxigênio. Enquanto na China e em outros países, a pandemia foi enfrentada com isolamento e cuidado com a contaminação eminente, o Brasil viveu um cenário de incertezas e assistiu uma disputa em palanques invisíveis, que agora se revela na CPI aberta pelo Congresso Nacional.

O Brasil não precisava passar por isso. Tínhamos capacidade mundialmente reconhecida no controle de epidemias. Nos saímos BEM de problemas como a gripe aviária, a cólera, e outras doenças das últimas décadas. Mas o país não utilizou sua inteligência epidemiológica.  Nessa pandemia fizemos o pior. Com mais de 500 mil mortes, a situação é ainda dramática, lamentável e a perspectiva é muito sombria. Outro erro grave foi cunhar o conceito de isolamento vertical versus horizontal. Nada se sustenta nessa narrativa, a não ser um falso dilema entre o valor da saúde e da vida em disputa com o desenvolvimento da economia. A outra falsa narrativa envolve a imunidade de “rebanho”, pois a chamada proteção coletiva só ocorre quando muitas pessoas são imunizadas com a vacina. Esperar que o adoecimento imunize é de uma crueldade atrevida. A mesma que compara pessoas com gado, para quem a testagem em massa não é capaz de impedir a transmissão da doença, e se incomoda com outras medidas, como o uso de máscara e o distanciamento social.

O quinto erro (absurdamente gravíssimo), foi o atraso na aquisição das vacinas e na elaboração de um Plano Nacional de Imunização. O desdém aos fabricantes acarretando uma oferta limitada de imunizantes, deixando de fora e em desespero as pessoas que já não estão conosco. São números. Ainda vamos perder muitos trabalhadores de serviços essenciais, trabalhadoras domésticas, dos meios de transportes, dos setores da educação e cultura. Quantas mortes teriam sido evitadas se tivéssemos comprado e recebido vacinas do Butantã e da Pfizer ainda em 2020? E mais, fomos o último país a aderir ao consórcio Covax Facility, organizado pela OMS. Estamos em um barco à deriva, completamente desgovernados. E a única coisa capaz de pôr um fim a esse descalabro é compreendermos que as ações e omissões da política podem resultar em mais vidas perdidas agora e no futuro.


Email