Consciência Negra: não é tarefa de mês, nem dia...

Reitero sempre que racismo faz mal à saúde!
Faz mal porque uma sociedade saudável luta contra o racismo, todos os dias do ano, em décadas seguidas. 
Se é assim, lutas de décadas e séculos, não cabem no dia 20 do mês de novembro, nem nele inteiro. 
Caberá, só se for para revistar a história da morte do líder quilombola, Zumbi dos Palmares, em 1695.


Só se for para o Brasil marcar o dia da  “Consciência Negra”, não apenas como uma data cívica, instituída em 1995 em homenagem aos 300 anos da morte de Zumbi, (um dos principais líderes a resistir à escravidão).
Só se for para ensinar que a abolição não foi uma “generosidade” da Coroa, do governo, da redentora princesa Isabel. Daí o motivo do movimento negro ter proposto a troca do 13 de maio pelo 20 de novembro (Dia da Consciência Negra), da princesa Isabel por Zumbi - numa luta política significativa.
Só se for para jamais esquecer que no dia seguinte à abolição (13 de maio de 1888), os escravos “livres” não foram reparados das barbaridades dos seus donos, nem teve o Estado presente para lhes apoiar no recomeço de suas vidas.
Só se for para relembrar que o sistema escravista não acaba com a Lei do Ventre Livre (editada em 1871- serão livres os filhos de mães escravas que nascessem depois dessa data).
Só se for para nunca deixar de lembrar que o abolicionismo (ascendente na década de 1880), não foi obra apenas de Luís Gama, André Rebouças, José do Patrocínio (chamadas lideranças negras), outros heróis anônimos, organizadores dos movimentos para fugas dos escravos, a história “oficial” os retiram de suas páginas.
Só se for para seguirmos defendendo o pagamento da dívida histórica que o país tem com a raça negra no acesso ao ensino superior e ao mercado de trabalho (constitucionalidade do Sistema de cotas - aprovado por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal, em 2012).
Só se for para respeitarmos e fortalecermos as políticas afirmativas, não apenas como estratégia de expressar a diversidade e confirmar que a população negra é maioria (censo de 2010 ), mas como condicionante ao aprofundamento e qualidade do Estado Democrático de Direitos.
Só se for para entender porque somos defensores do ensino de História Africana nos currículos escolares (formais e informais). Afinal, 4,8 milhões de africanos foram transportados para o Brasil e vendidos como escravos, ao longo de mais de três séculos. Não os asiáticos, europeus, nem os latino americanos (dados Public Library Digital Collections, 2012, New York).
Só se for como uma espécie de ato pedagógico para que pretos, pardos, brancos, amarelos e índios sintam, percebam os limites seculares de suas inserções no mundo educacional e do trabalho.
Só se for para compreendemos, repito, que o herói homenageado é um negro, cuja história remete-nos ao passado escravista do país e às consequências nocivas desse modelo exploratório para a população afrodescendente, ainda na contemporaneidade no território brasileiro.
Mas não é só... Há outras histórias com o mito da sociedade não violenta.


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